O Personagem do Real
O que é um documentário? A primeira lição do livro da portuguesa Manuela Penafria, “O Filme Documentário – História, Identidade e Tecnologia” é não confundir o documentário com a não-ficção. Segundo ela, a não-ficção representa outras formas de abordagem como a reportagem, o filme institucional etc.
Aqui mesmo já foi discutido que, a partir do momento em que o cineasta passa a filmar o que lhe convém, direcionar perguntas ou imagens e ainda ostentar um poder quase que ditatorial (em relação ao que foi “documentado”) na ilha de edição, é impossível dizer que um documentário seja o chamado cinema-verdade. Talvez seja, mas para os olhos daquele que o filma. Desde Nanuk, de Robert Flaherty (que é considerado o primeiro documentário da história), passando por Vertov, Jean Rouch, Grierson, Robert Drew, Leni Riefenstahl e, hoje em dia – e mais intensamente ainda – Michael Moore.
Apesar de tudo isso, muitas vezes os documentários nos parecem relatos excepcionalmente puros, como nos filmes de Eduardo Coutinho, por exemplo. Para mim, o melhor deles é Santo Forte, onde o diretor mostra a vida de pessoas de favelas do Rio de Janeiro a partir de suas trajetórias religiosas. Consuelo Lins, em seu livro dedicado a este que é, com certeza, o maior documentarista brasileiro da história, conta que Coutinho só entra em contato com o entrevistado no momento da filmagem, para garantir o frescor do primeiro encontro e, assim, uma história mais natural.
Partindo por uma linha completamente distinta – não só da obra de Coutinho, mas de tudo o que já foi feito em documentários no país, surge o belo “Santiago”, de João Moreira Salles.
Santiago era o mordomo da família Salles – ou Aristocracia, como Santiago preferia. Por vinte anos, este argentino cuidou da casa da família como se esta fosse um verdadeiro palácio imperial. Se bem que, na cabeça de Santiago, aquela casa o era. O agora velho senhor, entrevistado por quem antes chamava de Joãozinho, mostra no filme suas paixões como as mais de 30 mil páginas transcritas de livros em cinco idiomas diferentes.
Apesar de a história ser emocionante, não é este o ponto principal do texto. A diferença de “Santiago” é que o diretor, por uma série de fatores, demorou mais de 13 anos para conseguir retomar aquele filme que havia captado na casa de seu personagem, em cinco dias de filmagem. Segundo Salles, ele não se sentia à vontade para mostrar algo que, para ele era tão íntimo ou ainda tão incompreensível.
O que seria “apenas um documentário comum” se torna interessante a partir do momento que o diretor opta por mostrar não apenas as entrevistas, mas toda uma espécie de “making of” que acabou se tornando a própria obra. Assim, vemos a co-diretora (uma quase ditadora no filme) pedindo para o velho mordomo repetir frases, gestos e movimentos, tirando-lhe toda a espontaneidade e ainda induzindo este a falar – ou não – sobre diferentes assuntos com a rapidez que convém à produção do filme.
Fico imaginando se todos os documentários são feitos assim. Pela obra de Coutinho – que tenho um pouco mais de conhecimento – acho que não. Mas até que ponto um personagem deste tipo de filme se torna um personagem de filme “comum”, com um roteiro a ser seguido, um enquadramento perfeito, a luz ideal etc.? Hoje em dia não são poucos os filmes que misturam, de fato, o documentário com a ficção (como, aliás, o novo filme de Coutinho, “Jogo de Cena”), mas será este o destino documentário? Será que com as mais de 200 horas filmadas, João Moreira Salles não poderia mostra o que bem quisesse sobre Lula (no filme “Entreatos”) seja defendendo ou atacando???
OK, para não prolongar mais ainda...como um grande fã, tenho receio que o documentário se torne cada vez mais parcial, menos documental e apostando na estética perfeita, se pareça ainda mais com os filmes “normais”. Por outro lado, com o avanço das câmeras digitais, cada vez mais novos documentaristas surgem e realizam obras mais pessoais e sem financiamento, apostando realmente no que considero mais importante em um filme: o poder de uma palavra. E aí??
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