E Bergman se foi....

Saber que sua vida está acabando deve ser uma situação estranha, porém boa. Boa, pois uma morte inesperada nunca é natural e acaba indo contra a lógica das coisas. Se tudo ocorrer naturalmente, você saberá quando a morte está chegando e a esperará, tranquilamente e em repouso, assim como o grande diretor sueco Ingmar Bergman fez.

Dizem que seu maior filme foi "O Sétimo Selo", de 1957. Mas eu não acho. Também não acho que foi o belíssimo "Gritos e Sussuros", de 1972. Apesar de serem grandes filmes, para mim, a mais impactante obra deste Mestre foi "Persona", de 1966. A história trata de uma atriz que, de uma hora para outra deixa de falar. Internada em uma clínica, o diagnóstico é claro: ela não está com doença alguma, simplesmente deixou de falar. O cuidado da atriz fica ao cargo de uma jovem enfermeria que, com o tempo, desenvolve uma grande intimidade com a atriz. Esta personagem foi a primeira interpretada por Liv Ullman em um filme do diretor. Posteriormente, ela se casou com Bergman e atuou em mais de 10 filmes do sueco.

Para ser sincero, tenho quase certeza que a história é mais ou menos essa (afinal, depois de "Persona", foram muitos outros filmes), mas Bergman, agora não apenas neste filme, mas ao longo de toda sua obra, consegue transmitir uma forte carga emocional, com fortes influências teatrais, que, até por isso, é muitas vezes vista como maçante e "parada". Bergman tinha um olhar diferenciado sobre a morte, a solidão e, assim como Chico Buarque na música, sobre o Universo Femino.

Realmente os filmes do diretor não são lá muito agitados. Mas, diferente do que é pensado hoje, o cinema não é entretenimento. Quer dizer, alguns filmes são (quem sabe a maioria daqueles que são exibidos hoje), mas o cinema surgiu para documentar, para marcar um fato. Desde os Irmãos Lumierè até hoje em dia.

Apesar da grandiosa carreira, um dos pontos vantajosos de Ingmar Bergman é que, assim como Robert Altman e diferentemente de Godard, realizou grandes obras até o final de sua vida. Até onde eu lembro, seu último filme foi "Saraband", de 2005, que é uma continuação de "Cenas de um Casamento" e que trata do reencontro de um casal que já está separado há muitos anos e que resolve se reencontrar (aliás, a mulheré novamente interpretada por Liv Ullman).

A velha geração de grandes diretores de cinema está acabando, mas felizmente vemos muitos outros bons diretores substitutos. Hoje em dia é impossível realizar um "Filme de Diretor" que gere a mesma repercussão que um filme de Bergman, Altman ou Godard por toda a grande quantidade de informação com que convivemos hoje em dia. Mas, como Bergman nos provou, é nas coisas aparentemente simples, nos silêncios, que está nossa essência.

hej då!

Cena de "Persona"   

 

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