O Bloco do Cão Sozinho
Ciro é um cara comum. Talvez angustiado por ser comum demais. Com certeza angustiado por ser comum de menos. Todo dia ele acorda já deitado. Todo dia, ainda de pé, Ciro dorme acordado. Mas, para ele, o dia insiste em nascer para ver deitar o novo.
Ciro é um cara comum. Mas procura alguma coisa diferente. Não busca um coração normal, não quer um ritmo perfeito. Quer controlar seu guidão, quer um coração que bata no descompasso – com ou sem suín - pois o seu já está cansado de tanto bater.
Sua paixão por Marcela é tão grande e tão intensa, que só se manifesta quando ela parte. O sexo e o suor não bastavam. Mas agora era tarde, não mais havia nenhuma canção. O que os sentimentos tiram, os sentimentos dão. Como pode alguém perder Marcela como fez? Como não a quis? Para ele não existe o “assim será”, não diz adeus ao que restou de quem um dia foi feliz. Pois feliz ele não foi e ao resto, do resto, do resto não há adeus. Só o pranto em solidão.
Na vida de Ciro não há óbvios utópicos. O menosprezo apaixonado que transmite, não apenas à Marcela, mas também aos seus pais e ao próprio cachorro mostra que nessa estrada, quem está na contramão é ele. Apesar de não conseguir pagar suas contas, apesar de ter recusado a única proposta de emprego que lhe foi oferecida, apesar de não conseguir ser um bom filho para seus pais. E a solidão, deixa estar.
Mas enquanto Ciro enterrava seu afeto e voltava ao berço antes desprezado, e quando as horas cansaram de bater até ela chegar, o telefone toca. Era Marcela. E se ela trocou Ciro, não foi por maldade... Como se significasse um final feliz (ou qualquer final que seja) ela arranjou alguém, chamado saudade.
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